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DESAFIOS À CONSTRUÇÃO

14.agosto.2019 - 10:10

Cenário atual requer rigor nos cuidados com a segurança para garantir melhores resultados

Cristiano Cecatto - Engenheiro Mecânico e Segurança do Trabalho, Mestre em Engenharia de Produção, Certified Machinery Safety Expert - CMSE®, Consultor e Diretor da SSO - Assessoria em Segurança e Saúde Ocupacional.

De 2012 até dezembro de 2018 o Brasil somou 4,8 milhões de acidentes de trabalho. A estimativa é que, a cada 48 segundos, um novo caso aconteça em todo o território nacional, sendo a construção civil o quarto maior setor em ocorrências. Os dados são do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho, organizado pelo Ministério Público do Trabalho, e podem ser acessados no endereço eletrônico https://observatoriosst.mpt.mp.br. A ferramenta, que acompanha a evolução destes dados em tempo real, contabilizava 17.715 mortes até o dia 15 de julho deste ano, em um impressionante número de 4.848.743 ocorrências e 378.754.87 dias de trabalho perdidos com afastamentos previdenciários produzidos por esses acidentes. Mas esse cenário pode ser ainda pior por dois motivos. O primeiro é uma estimativa de subnotificação de acidentes de trabalho, com ao menos 154,2 mil casos de acidentes registrados em 2018. Infelizmente, um número que aumentou em relação ao ano anterior, quando foram 98.791 ocorrências, dentro de uma série histórica que vinha em queda desde 2008.

O segundo motivo surge ao avaliarmos informações de 2018 da Justiça do Trabalho. A crise econômica que o país atravessa nos últimos anos teve reflexos nítidos no desaquecimento do setor de construção civil, provocando uma elevação na informalidade. Com mais funcionários trabalhando sem registro e a eterna dificuldade do poder público para fiscalizar, a possibilidade de mais acidentes é uma realidade. Ainda que não se possa ter certeza sobre os números oficiais apontados pelo Ministério Público do Trabalho, esse cenário lamentável é compreensí-vel se levarmos em conta que os canteiros de obras são uma permanente fonte de riscos para quem trabalha nestes locais. Como é possível assegurar uma taxa alta de segurança se na maior parte das vezes equipes inteiras de marceneiros, eletricistas, pedreiros, entre tantas outras categorias, passam pela mesma obra sem ter recebido as mínimas informações sobre segurança? Estamos diante de uma questão que fica ainda mais preocupante, pois de acordo com o artigo 166 da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) é obrigação das construtoras disponibilizar os Equipamentos de Proteção Individual para seus funcionários. A mesma legislação também prevê punição para o colaborador que recusar o uso destes equipamentos. Se isso não fosse o suficiente, ainda temos a Norma Regulamentadora número quatro, que foi criada pelo extinto Ministé-rio do Trabalho (cujas atribuições atualmente estão sob a responsabilidade dos ministérios da Economia, Cidadania e da Justiça e Segurança Pública). A NR 4 tem como finalidade central reduzir os acidentes de trabalho e doenças ocupacionais. Porém, o problema ainda está distante de ser solucionado.

IMPACTO

E o assunto não é uma exclusividade brasileira. Em todas as partes do mundo isso se repete. Jeff Behar, engenheiro sênior em Segurança no Trabalho para a NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, e Paul Allen, especialista sênior em riscos para Chubb Risk Engineering Services do Estado da Filadélfia, são enfáticos ao afirmar que um treinamento adequado com supervisão precisa ser feito de maneira permanente.

A Administração de Saúde e Seguran-ça Ocupacional (da sigla original em inglês OSHA) aponta que as empresas daquele país têm reconhecido o impacto que a falta de segurança pode gerar. A entidade, que é uma agência do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos, revela estimativas de quase US$ 1 bilhão pagos semanalmente para custear a compensação de trabalhadores diretos. Esse gasto é provocado pelos acidentes ocorridos nos locais de trabalho e pelas doenças relativas às atividades nas obras. É fácil perceber que, além das despesas médicas, está incluído aí o dano à reputação das construtoras.

Na construção civil brasileira, dedos, pés, mãos e joelhos são as principais partes do corpo prejudicadas entre os trabalhadores. Mas os traumas também podem incluir envenenamento e dermatite, por exemplo. E se for considerada a exposição a produtos que contêm amianto ou ao ruído, citando apenas dois fatores de risco, a projeção de lesões só aumenta.

REALIDADE

Tudo isso pode ser facilmente evitado e reduzido com facilidade com um conjunto de ações básicas. Uma análise de riscos somada ao treinamento de pessoal e ao uso correto de Equipamentos de Proteção Individual evitaria inúmeros acidentes. A aplicação desta simples fórmula deve ser feita ciclicamente, até para impedir a perpetuação de outro dado divulgado pela OSHA: um a cada 10 trabalhadores da construção civil sofrem acidentes de trabalho todo ano.

Behar e Allen trazem informações da Agência de Estatísticas Laborais dos Estados Unidos mostrando que 60% das lesões geradas em locais de construção civil ocorrem no primeiro ano de trabalho do funcionário. É uma obviedade afirmar que efetuar práticas corretas de Segurança no Trabalho é a receita para diminuir gastos, aumentar a produtividade e os lucros e melhorar o nível de responsabilidade social de uma construtora. Mas nunca é demais reafirmar que a ausência de programas de Saúde e de Segurança Ocupacional pode retardar e muito o crescimento e a sustentabilidade de uma empresa, além de impedir a atração de profissionais mais experientes.

FATORES DE RISCOS

O estabelecimento de um programa de equipamentos de proteção pessoal exige uma definição dos focos de perigo no local de trabalho. Dentre as várias possibilidades, registro o pó e as fibras que surgem, por exemplo, em demoli-ções, afetando os pulmões e gerando doenças como asma e silicose, entre outras. Vale lembrar ainda que nas edificações antigas existe amianto tanto em telhados quanto em coberturas de vinil. Agente causador de câncer, o amianto significa um perigo ainda mais grave, pois os operários podem levá-lo até suas famílias sem saber em suas roupas contaminadas.

Não esqueça que seus colaboradores podem vir a sofrer a síndrome de vibração de mão e braço, cujas dores são fortes e causadas pelo uso prolongado de ferramentas pesadas, como as britadeiras e equipamentos de compactação de solos. A exposição ao chumbo, a operação e a proximidade com maquinário pesado, o excesso de ruído, além de tropeções e quedas são outros fatores que também têm figura destacada em uma listagem de perigos.

Cabe ao empregador manter e oferecer aos seus empregados o correto programa de equipamentos de proteção pessoal para ser utilizado em todas as obras onde há exposição aos fatores de risco citados e a todos os demais. Só o fato de analisar e escolher os materiais adequados já contribui para identificar ameaças, indicar um mínimo de exigências sobre proteção e até gerar treinamentos para todos os colaboradores, quer sejam antigos, quer sejam novatos.

EPIs

Importante destacar que a série de equipamentos pode começar com a proteção para olhos e face, que devem ser usados o tempo todo durante o trabalho, principalmente em atividade de corte de objetos, manejo de produtos químicos ou em locais onde há partículas no ar e quando há ações que envolvam eletricidade. Não esqueça da proteção para os pés, com o uso de calçados e botas anti derrapantes e que sejam resistentes à perfurações e para as mãos, que também precisam estar seguras com luvas. Para a segurança da cabeça, os funcionários devem usar capacetes o tempo topo devido ao risco de queda de materiais e para evitar eventuais choques com objetos fixos ou contato acidental com locais com eletricidade. Outros pontos básicos são a proteção auditiva, o uso de roupas com cores fosforescentes para ações em rodovias e ruas e as máscaras de respiração com filtro para locais com poeira. Especialistas em Segurança do Trabalho em todo o mundo são unânimes ao ver nesse rito a tão sonhada diminuição de acidentes e de afastamentos do trabalho, corte nos custos e, por consequ-ência, mais efetividade e agilidade no cumprimento do cronograma de obras.

Novamente lembrando das lições de Behar e Allen, é bom frisar que existem limitações para a implementação de um programa adequado de uso de equipamentos de proteção pessoal. Eles exemplificam tratando de empregados terceirizados ou pertencentes a outras empreiteiras, que podem não ter recebido o treinamento adequado para se ter cuidado com os perigos existentes em obras, o controle de ameaças e uso dos Equipamentos de Proteção Individual.

MEDIDAS

Agora imaginemos uma obra em pleno funcionamento. Pedreiros, pintores e instaladores, cada um nas suas respectivas funções, atuando simultaneamente na construção de um edifício de escritórios. Raramente veremos todos eles com os equipamentos adequados. Até por que as atividades não exigem os mesmos tipos de elementos de proteção. No entanto, o risco de acidentes está maximizado nesta cena. O ideal é ter um conjunto básico de itens de proteção para todas as equipes de trabalho, independente da função que cada uma exerça. Isso vai, naturalmente, gerar um custo extra. Mas jamais será maior do que a despesa provocada por um acidente.

O sistema adequado exige que você tenha a obra sinalizada, tanto interna quanto externamente e no maior número possível de locais, com orientações sobre o tema. Faça encontros semanais para definir e orientar, além de inspeções não agendadas. Tudo isso vai ter reflexo no condicionamento do pessoal para a necessidade permanente de estar protegido. Após cada inspeção forneça os resultados para os responsáveis pela obra. E coloque em prática um plano de ação corretivo, com regras sobre como proceder em situações irregulares. Estabeleça até um sistema de penalização, com advertência verbal inicialmente, aviso por escrito em uma segunda oportunidade e possibilidade de demissão a partir daí.

MUDANÇA

O que tenho notado como engenheiro de Segurança no Trabalho há 18 anos no mercado é que, com a crise financeira recente do país, o número de grandes empresas diminuiu. Por outro lado, a quantidade de empresas menores, com equipes menos robustas, aumentou. Por consequência, as primeiras – que tentam diminuir suas responsabilidades legais evitando a manutenção de funcionários na sua folha salarial para tentar assegurar uma estabilidade – acabam contratando as segundas. Infelizmente, a maior parte destas, não têm conhecimento das Normas Regulamentadoras, pois suas estruturas mais tímidas as impedem de investir em profissionais do ramo da segurança. Assim, por causa desta falta de informação, o número de acidentes entre as equipes de três, quatro ou cinco funcionários, por exemplo, é cada vez maior.

Sou totalmente convencido de que as estatísticas negativas podem sim ser revertidas. Creio efusivamente que as empresas têm viabilidade para obter mais lucros, manter uma imagem de responsabilidade social adequada e contar com profissionais realizados e satisfeitos. Mas, para isso, indico com a mesma certeza que as empresas invistam mais em programas de Segurança do Trabalho. Desta forma, além de reduzir riscos, com certeza o custo total da obra será menor.

Para concluir, cito aqui uma receita simples para se trilhar este caminho. Uma eficiente análise elaborada por Dayvson Carvalho, analista de marketing e graduado em Administração pela ESAG (Escola Superior de Administração e Gerenciamento) da UDESC (Universidade do Estado de Santa Catarina). O trajeto correto é manter atenção total às NRs; assegurar que todos seus colaboradores utilizem os Equipamentos de Proteção Individual; efetuar o Diálogo Diário de Segurança (de 5 a 15 minutos antes do início da jornada de trabalho) entre a equipe e um técnico em segurança, um profissional do SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho) ou da CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes), um engenheiro de segurança ou um profissional convidado; capacitar toda a equipe; e criar a CIPA.

Fonte: Redação Revista Proteção

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